A adaptação nos berçários

Papai, mamãe, eu e a Tre-Le-Lê

Estamos iniciando uma etapa bastante delicada em nossas vidas. Após pensarmos e repensarmos, decidimos, enfim, por esta creche. Ela pareceu-nos bastante agradável e fomos recebidos com carinho e atenção.

Parece que tudo está bem e vai dar certo, contudo, precisamos ficar atentos a estas mudanças, para que não nos decepcionemos com nossas próprias expectativas e termine em frustração esta nossa experiência.

 

De: criança do berçário

Para:  meus pais …..

 

Angústia da separação: teremos que nos adaptar a esta nova realidade. Sinto que o afastamento é mais doído em vocês, mas, também, foram tantas as expectativas até a minha chegada e, agora, sentem-se obrigados a separarem-se de mim. Sou capaz de sentir a angústia e a incerteza que sentem, mas pensem bem, nós escolhemos este lugar. Para eu sentir-me seguro, preciso que vocês confiem e acreditem que estamos fazendo o melhor para todos nós. Preciso sentir saudades, não insegurança.

 

Adaptação: as pessoas aqui sabem o que fazem! Quando dizem que preciso inicialmente de pequenos períodos, é por experiências, pois não conheço essas pessoas, tão pouco este ambiente, sou pequeno demais para digerir rapidamente tais mudanças. Preciso de tempo para aceitar e gostar de tudo isso. O elo será formado, com certeza, pois sinto que todos sabem amar, suportam meu choro e pirraça com tanta calma, que fico surpreso. Elas entendem a necessidade de respeitar esse meu momento. Meus amigos, que já passaram por isso, disseram que vou adorar essa creche e as pessoas que aqui vivem conosco.

 

Atividades pedagógicas: percebo que nas brincadeiras, sempre tentam estimular-me a fazer algo que ainda não fazia, criam desafios e estão sempre por perto me incentivando. É brincando que aprendo o mundo à minha volta, que cresço e me desenvolvo; quanto mais estimulado eu for, mais criativo, independente e inteligente fico.

 

Socialização: estou descobrindo como é bom conhecer outras pessoas, mesmo que de início fique desconfiado: sinto que são pessoas confiáveis. Gosto de brincar sozinho, mas adoro quando tem crianças por perto. Ainda não sei dividir o que tenho, por isso mesmo, às vezes, empurro e sou empurrado, mordo ou sou mordido, pois preciso “dizer“ (ao meu modo) o que quero ou me impor ao grupo. As tias dizem que em um amigo não se bate ou morde e sim fazemos carinho, beijamos, trocamos de brinquedos, não sei não! Acho que vou demorar um pouquinho até nós entendermos isso, por enquanto, acho que vou resolver os “problemas” ao meu modo.

 

Machucados e mordidas: seria muito bom eu não me machucar ou ser mordido, mas, para que isso fosse possível, eu teria que me isolar de meus amigos e não poderia mais brincar. Seria privado das lesões, mas preciso dessas experiências. Meu corpo precisa ser inserido no mundo, para que venha ter consciência dele no futuro. Correndo, pulando, saltando, engatinhando… machucando, arranhando, mordendo, mordido, só assim, terei plena consciência do que sou, de quem sou e de como fazer. Serei criativo, inteligente, amigo, seguro… Tenho certeza que é isso que deseja para mim, não é mesmo? Por isso, não se angustie quando acontecer, pois pior do que sofrer lesões será eu ficar aprisionado dentro do meu corpo. As lesões não “denunciam” falta de cuidado e sim que estou sendo livre para experimentar a vida.

 

Alimentação: o cardápio, a quantidade e os horários são estudados a fundo por uma profissional chamada nutricionista. Ela parece entender do assunto! Eu e meus amigos comemos com muito prazer: a hora das refeições é sempre uma festa!

 

Higiene: as tias sabem quando preciso trocar as fraldas, vez ou outra, tento disfarçar ao máximo, pois meu ofício de trabalhador de brincadeira não é fácil, requer muito empenho, mas elas acabam descobrindo! E saem à procura de onde vem aquele “cheirinho”; descobertos, temos que parar um pouquinho nossas atividades. Tomo banho duas vezes por dia e escovamos os dentes após as refeições. Estou aprendendo direitinho a importância de ficarmos limpinhos.

 

Material de uso pessoal: usam comigo, somente, o que for meu, mas na hora de guardar, não segue tudo em minha bolsa, mas preste atenção, são muitas crianças, lembrar-se de detalhes fica difícil! Para ajudar precisamos colaborar e escrever em todos os meus pertences o meu nome: assim as trocas ficam mais difíceis.

 

Saúde: Percebo que é sem dúvida, a maior preocupação de todos aqui e com razão. Adultos não suportam ver o sofrimento de crianças! Apesar dos ambientes serem arejados, ensolarados e mantidos sempre limpos e desinfetados, para manterem-se minimizados os ataques dos “bichinhos” que fazem mal a gente. O fato de pertencermos agora a uma comunidade trará este inconveniente. Ainda não estou imune a uma série de doenças, não tenho em meu arsenal as “armas” para combater esses “intrusos”. A consequência é que ocasionalmente poderei adoecer, para desespero de todos vocês. Nestes casos, seria conveniente afastar-me do grupo, pois além de precisar de cuidados especiais, poderei levar aos meus amigos o desconforto que senti. Talvez este seja o único problema que não possa ser totalmente superado pela creche, mas nós também poderemos auxiliá-la, entendendo este fato como sendo não como um “grande problema”, mas sim, uma conseqüência, que nos levou a experienciarmos o lado muito prazeroso dos tempos modernos.

 

Assim, estaremos conhecendo e conscientes do processo no qual estamos neste momento. Com certeza, podem ir e paz, estamos em boas mãos! Sentirei saudades, mas ficar aqui também é muito bom.

 

E por favor não chorem, tenho certeza de que saberão se cuidar lá fora!

 

 

Podem ir…

                     estou bem …

                                          Ah! Esses meus pais parecem até crianças …

 

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